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Só por hoje novembro 7, 2008

Posted by Teacher Rê in Writing.
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Por simples exclusão de partes, não poderia ser a morte quem dela precisamente havia sido vítima,

(…)

Era evidente que a morte não arredará pé do seu compromisso com a humanidade.

(Intermitências da Morte, José Saramago)

Clara ouviu em uma sessão de análise que precisamos viver um dia de cada vez, mas infelizmente ela não conseguiu entender muito bem a teoria do “Só por hoje”. Desde aquele dia, ela começou a se perdoar mais, entendeu que só por hoje, ela iria abusar das coisas que tinha direito. Só por hoje, ela iria se divertir de verdade . Só por hoje, ela iria experimentar aquele lance novo que a galera da faculdade vivia falando. Só por hoje, ela iria se permitir chegar atrasada. Só por hoje, ela não iria se culpar por ter esquecido de tomar suas vitaminas. Só por hoje, ela não iria pedir perdão pelo seu prazer. Só por hoje, ela não iria levar desaforo para casa. Só por hoje, iria dirigir depois do coquetel da empresa. Só por hoje, iria ceder aos encantos de Mário, o namorado de sua melhor amiga e também só por hoje, não iria com ela dividir um segredo…


De quantos “SÓ POR HOJEs” vivemos? Quantos “SÓ POR HOJEs” são necessários para construir uma personalidade? Quantas vezes nós diremos “SÓ POR HOJE” antes de destruir uma amizade,  antes de acabar com auto-respeito, antes de perdermos a si mesmo? Vivemos cercados de auto-indulgência e isso me incomoda. Me incomoda por as vezes também ser assim e por reconhecer essa técnica de pseudo-libertação em todos ao meu redor. Me incomoda que as pessoas sejam tão extremamente egoístas a ponto de aprender a se perdoar até mesmo antes de magoar os outros…elas sabem que mais cedo ou mais tarde o farão mesmo. Me incomoda a falta de cuidado com o ser humano, a falta de respeito por quem está na fila, a necessidade de avançar no transito apenas para mostrar quem pode mais, a crueza com que muitos tratam os que os servem, a sensação de que mesmo nas pequenas coisas, muitos precisam demonstrar o quão melhores são, e não pela necessidade de se sentir melhor, mas principalmente pelo prazer de ver o outro se sentir mal. O que mais me incomoda é a dúvida de que morte teremos se nos permitimos viver assim…

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